segunda-feira, 24 de julho de 2017

Afinal, feminismo limita ou liberta a mulher?

  • De início, vamos fazer uma viagem no tempo até a Grécia Antiga, uma das sociedades passadistas em que o homem mais desenvolveu diversas áreas do conhecimento, técnicas mais aprimoradas de sobrevivência, enfim, foi um ápice de descobertas. A área da política era muito bem vista, e quem tivesse o discurso mais bem falado na ágora, teria prestígio na vida social. Pra se ter uma ideia, a ágora era uma praça em que todos os moradores gregos conversavam sobre os assuntos considerados mais importantes da época: Política e Filosofia. Aí é que está o ponto em que quero chegar, em nenhum momento estudei sobre mulheres filósofas muito menos políticas, dessa época. Pitágoras, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles. Todos homens. As mulheres, juntamente com escravos e estrangeiros, eram proibidas de votar. Ué, uma grega proibida de votar na própria terra de origem? Pois é, isso comprova o fato de que o ser humano ter nascido com uma vagina, já era condicionado a não ter acesso a conhecimento ou oportunidades, pois era considerado um ser inferior. Certo, vamos pra Idade Média agora, época em que a Igreja mandava e desmandava nos pensamentos e costumes humanos, além dos seus feudos. A partir daí, a mulher passa a ser vista como algo idealizado, no sentido de santa, para ser bem vista socialmente deve se comportar como um ser intocável, ingênuo e ter como objetivo de vida cuidar do marido e da casa. Veja, esse objetivo era imposto, portanto a mulher não tinha a liberdade de escolher seu futuro, era tratada como mercadoria, já que a família escolhia o seu marido avaliando como critério principal a quantidade de feudos que sua família possuía, e faziam acordos com corpos, com uma simplicidade incrível. Ah, mas ambos os gêneros eram obrigados então, não era especificamente a mulher que devia seguir os padrões. Só que não. No quesito sexo, a mulher não podia demonstrar prazer algum, já que o pensamento religioso da época dizia que isso era pecado, e que se demonstrasse era vista como algo promíscuo, e não como uma condição natural de qualquer ser humano. Além do que, o homem, na maioria dos casos, podia trair sua esposa com quantas outras ele quisesse, e não seria mal visto socialmente, ou poderia bater nela quantas vezes quisesse, e não seria mal visto socialmente, ou poderia obrigá-la a fazer sexo quantas vezes e na hora que ele quisesse, que não seria mal visto socialmente. Concluindo, o sexo feminino não tinha liberdade sexual, social e muito menos de expressão. Sem falar na Idade Moderna em que a mulher negra, além de ser tratada também como uma mercadoria, era submetida a castigos físicos e abusos psicológicos e sexuais. Então a partir daí, a mulher passa a ser julgada por dois fatores principais: nascer com uma vagina e ser negra. Elas só tinham um direito: a de ficar calada e aceitar tudo que lhe era imposto. E esse direito se reproduz até a sociedade atual, sim, ainda existem bilhares de mulheres que não tem a liberdade de escolher o jeito de viver a vida, lhes é imposto uma única realidade: a de se casar, ter filhos e se dedicar à casa e ao marido, visto como a figura "chefe", deve ser o único que trabalha e contribui financeiramente com a casa. O feminismo é um movimento que luta para que a mulher tenha a ampla visão do leque de opções em que ela pode escolher viver, seja como dona de casa, ou em qualquer outra profissão, e que ela possa competir com o homem, ambos a partir de um mesmo patamar. São diversas as mulheres que têm se encontrado, que não ficam mais caladas e reconhecem a sua liberdade, como a de qualquer outro ser humano, de escolher viver sem se sentir ameaçada pelo simples fato de ter nascido com uma vagina, que não passa de um órgão, e que NUNCA deve ser um fator condicionante de algo, seja ter que usar sempre rosa, e passar a infância brincando de bonecas e panelinhas, e a adolescência e a maioridade vivendo sob as custas sexuais e psicológicas impostas pelo homem, no qual o pensamento de superioridade já é de raíz cultural. É como se tivesse uma faixa nos olhos de homens e mulheres que acabam reproduzindo a parte opressora da cultura antiga, medieval e moderna, e tornam "normais" certos costumes que objetificam a mulher, as banalizam. O movimento feminista não quer excluir opções, quer ampliar realidades, portanto a resposta para a pergunta-título é: feminismo não limita, ele procura fazer com que a sociedade e a mulher em si, reconheça a Liberdade como algo recitado pelas sábias palavras da cantora Nina Simone "Liberdade, para mim, é não ter medo". 

sábado, 8 de julho de 2017

O mito do Homem Branco Superior ainda supera Papai-Noel e Fada do Dente

Lendo um artigo sobre o período da Pré-história, me deparo com a informação sobre a descoberta de um esqueleto fóssil feminino, considerado o mais completo da família do Australopithecus, em 1974, encontrado na Etiópia, país africano. Então, a "comunidade" científica escolhe colocar o nome do fóssil de Lucy, para homenagear uma canção dos Beatles, que na época faziam sucesso "mundial", vulgo no hemisfério Ocidental. Resumindo: o fóssil foi encontrado em território africano e a homenagem é a um produto cultural ocidental, mais especificamente da cultura inglesa. Esse fato é uma constante que muda de fantasia de tempos em tempos. Lembrando da prática do imperialismo, em que países desenvolvidos se consideravam culturalmente e economicamente superiores a países principalmente orientais, esse acontecimento recente mostra que ela ainda prevalece e contribui a uma maior idolatria à cultura ocidental. Os países de grande poderio invadiam e viravam parasitas não só de matérias-primas, como também do sentimento de nação, de continentes asiáticos e africanos, mandando e desmandando em suas terras e em sua cultura, afinal, para conseguirem seus lucros, tinham que fazer com que o consumo, por parte dos habitantes, fosse de seus produtos culturais, causando milhares de conflitos étnicos e religiosos. Essa ideia de associar o que é "legal"/moda a algo americanizado, é fruto do imperialismo. A manipulação dos gostos musicais, cinéfilos e culinários tem sido da autoria de países desenvolvidos que acabam tendo sucesso, não pelo poderio bélico, mas por influência de fatores econômicos e -principalmente- midiáticos, dos famosos meios de comunicação. Por que, no meio musical, as bandas americanas estão estampadas em outdoors reais ou virtuais, enquanto bandas holandesas, russas, africanas, indianas e egípcias, possuem como maior parte do público, específico de seus locais de origem? Por que, a minoria (do Ocidente) que se interessar por elas, é considerado como alguém que tem um "gosto peculiar"? E por que, no meio cinematográfico, mais uma vez, em sessões de cinemas, o catálogo está sempre lotado de filmes principalmente americanos e ingleses, e não com uma distribuição uniforme de origens diversas? É como uma venda manuseada pelas potências mundiais: o indivíduo só vê o que Elas deixam, não mais que isso, e o diferente acaba sendo associado a algo ruim, estranho. O ritmo lento de filmes franceses, por exemplo, acaba sendo considerado cansativo pelo público ocidental que está acostumado com cenas rápidas da maioria dos famosos filmes americanos, e seu conteúdo acaba sendo ignorado. Se não é consumido, não dá lucro, portanto é descartado da vitrine de opções culturais vendidas pela mídia. O termo "Opções" é bem incorreto, considerando que nossas escolhas não são bem nossas, na verdade são controladas pelos grandes "chefões" e aqui começa a grande discussão de Indústria Cultural, que é só mais outra constante na sociedade contemporânea, mostrando que, enquanto a sociedade progride em certos pontos, em outros, involui, caminha para o lado contrário de vários modos, seja ignorando Adorno e Horkheimer, seja tentando julgar produtos pela sua etnia e não pelo conteúdo. Evolução é algo realmente relativo.

sábado, 1 de julho de 2017

O esquisito chamado de Amor

Velhos hábitos nunca mudam
não adianta, amor
tentar remendar os rasgos dessa roupa
com laços folgados que deixam os buracos
entrelaçados e escondidos
permanece a mesma camisa antiga
com perfumes que embaçam os mesmos erros
o odor continua
mais uma vez
berros são resolvidos com a palma da mão
berros são resolvidos com a altura da voz
cadê tua voz
ele grita
ela tapa os ouvidos
costurando a própria boca
se enche de panos entre os dentes
ao deitar-se toda noite
sussurra
pro mundo calado
a oração de cada dia
"Tudo em nome do amor"
E esse tudo é seu carrasco
e não mais o esquisito que usa trapos velhos
ela é sua própria foice
ela está com a pena na mão, a sentença é de sua autoria
"Mil desculpas, paixão!
quebro-me em mil pedaços, mas me devolve a tua mão!"
Ela não ouve mentiras
mas sua vida (que vida?)
é uma perfeita ilusão
marionete guiada por mãos
de um corpo cujos olhos estão feridos
Ao cair pela centésima vez,
de joelhos ao chão
lava as roupas do esquisito
e tenta, fervorosamente, tirar o cheiro de orgulho
quer
por mais que tudo
tapar os buracos negros profundos
e tenta novamente
e falha novamente
mente falha a do ser humano
mal sabem que não se limpa com sal ferida infeliz
não se muda alguém como se compra cabides
não se desfaz um quebra-cabeça que está emoldurado
e mais uma vez
o buraco é tapado, outra mentira renasce
e ela cai em desespero
em silêncio! Se não acorda o esquisito
codinome: Amor.
Pela centésima primeira vez ela cai
dessa vez empurrada pela voz de seus pensamentos
"Queremos sair!"
E a Liberdade pede carona, sem volta
com destino da boca pra fora
e da boca do esquisito
veneno
disfarçado de abrigo
e ela bebe do seu vinho, pela milésima vez
mas a Liberdade não quer saber,
luta contra correntes e demônios internos
quer viver!
Ela olha pra dentro, e sente o céu negro
seus olhos de repente
reparam o vulto que chama de Amor
e ao invés de lágrimas, guarda-chuvas em seus olhos
sua arma torna-se a palavra
e a sua retirada do círculo sem fim do esquisito
tira-lhe do caminho um futuro vestido de velhos erros
e a sua vida finalmente, tem um início
enfim

sábado, 3 de junho de 2017

O preço da vaidade do ser humano

Até que ponto o ser humano irá sacrificar um outro ser vivo, diga-se de passagem tanto os animais racionais quanto os considerados irracionais, para fazê-lo sentir a sensação de poder? Ter a sensação de controle do mundo, pelo menos de algum mundo? Inventado por ele próprio, é claro. A ilusão de que ele ou ela é o rei de algo ou de alguém, mesmo que vivamos em um planeta que flutua numa galáxia que possui 400 bilhões de estrelas e alguns milhares de buracos negros. We are nothing. A globalização é só mais uma ferramenta de criação humana a qual o próprio criador não sabe usar em prol de um benefício maior que ele. Os meios de comunicação sociais tem sido utilizados como uma arma nuclear do século XX. Einstein e Jobs devem se revirar pelos túmulos. É claro que não se pode negar a quantidade de amor que é espalhado pela internet, televisões ou jornais,  que ajudam milhares de seres vivos, através da visibilidade de ações de denúncias, casos de doação de dinheiro ou o compartilhamento de alguma informação com um pensamento diferente que fez um outro refletir, ou somente causar uma discussão saudável. Mas não se pode negar a existência dos  casos em que a ruptura só aumenta. Pessoas tratando a outras como deuses; milhares de seguidores numa conta de rede social são números que ,de repente, são mais importantes do que seu CPF, ou o número da sua conta bancária, ou da data do seu nascimento! Passamos a acrescentar mais símbolos ao nosso rótulo: além da roupa que vestimos e da marca que ela carrega, além do carro que compramos, além do valor daquele relógio ou batom que usamos e recomendamos para todos que conhecemos porque, afinal, consumir é sinônimo de felicidade, passamos a ser números de seguidores e likes do Facebook ou Instagram. São números, números e mais números, todos ocupando um rótulo constante de várias grades de bebidas - às vezes cheias demais, às vezes vazias demais- nunca menos que o limite, e sempre presas. O ser humano e a sua estranha preferência por excessos. Ao sair de casa eu vejo um mundo, que é diferente de todos os outros, e frases também, que são iguais a todas as outras. Elas se repetem em todos os lugares:  "amor e paz", "menos guerra, mais amor", "todos nós somos passageiros", "carpe diem". Não custa nada você parar pra pensar e realmente comparar elas com o seu cotidiano? Será que elas existem perto de você em forma de ações ou com a função de apenas palavrear? Ou de estética? Mas é claro! Você curtiu tanto a ponto de pôr no seu perfil do Twitter, porque "te define", seja lá o que ela signifique, afinal, todo mundo usa. Ou na legenda daquela foto que você tanto queria postar. Ou naquela camiseta legal que todo mundo do seu grupo de amigos têm usado ultimamente. São só mais frases batidas na boca das pessoas, em blusas estampadas com desenhos de animais "fofos" ou em legendas de fotos sem nenhum propósito. Assim como "love", que tem que ser mesmo o nome em inglês, porque em brasileiro "é feio". É a banalização do real significado das coisas. Não me leve a mal, não acho que tudo tenha que ser problematizado, mas o ponto é: as atitudes precisam ser mudadas. Eu não sou tola por acreditar que uma ação solidária, como um abraço, uma prestação de ajuda a quem necessita, uma denúncia a algum maltrato, realmente possa ajudar o mundo a sobreviver, em meio a quantidade de doenças irreversíveis que existem, ou de casos de abusos psicológicos e físicos à crianças, adultos e idosos, de todos os gêneros, que estão acontecendo a cada minuto nesse exato momento em que você lê, ou a quantidade de pessoas com fome dispostas a matar por leite ou comida, ou a quantidade de pessoas que estão sem voz no seu país, na sua própria casa, e que são obrigadas a fugirem por falta de liberdade. Esses assuntos não podem ser omitidos, esses sim, devem ser batidos na boca de todo mundo, mas não é só falar sobre eles, muito menos criar teorias extensas de soluções. É praticar as soluções, é a prática mínima de amor possível.O mundo está doente, e a urgência é da humanidade, do amor e da empatia. O ser humano criou a internet para iludir, criou as frases curtas com significados profundos mas que ninguém realmente vai parar pra pensar neles, porque o rápido, o instantâneo, a quantidade mais alta de seguidores é o que realmente traz lucro. Você tem que saber a língua do dinheiro se quiser viver no planeta Terra. A posição do antropocêntrico precisa ser reavaliada, ele precisa tirar o capuz da ilusão de que o mundo é perfeito porque você vive num teatro padrão: acorda, toma banho e café da manhã, vai pro seu trabalho ou colégio e quando chega em casa, assiste a alguns vídeos engraçados de animais dançando e pulando ou pessoas caindo com uma musiquinha "cool" de fundo, ou séries que te fazem se sentir mais inteligentes, ou só pra jogar o tempo fora, afinal, o dia foi longo. Voltando no seu carro de vidros foscos, de preferência quase pretos, que é pra você não olhar ao redor, não quer enxergar os "marginais" que andam sem blusas e sem sapatos, e principalmente, não quer que eles te enxerguem. Não. Só a frente do seu carro e o retrovisor servem, que é pra você ter uma vista limpinha. Não quer ver preto na rua pedindo dinheiro, não quer ver criança pedindo pão ou moeda. Se tocar ou bater no vidro já sabe o que fazer : colocar o dedo polegar para baixo e pensar "por que esse menino não está na escola?" ou "cadê a família dele?" ou "esse vagabundo está aí todo santo dia!". Depois segue o caminho, mesmo que use um tapador ao redor dos  olhos, que nem burro de carroça. Aliás, não quer nem ver carroças, quer que saiam do meio do caminho, tem hora pra chegar. E hora custa dinheiro. Tempo é caro. O excesso do capitalismo e seus ideias de lucro só tem causado desigualdade. A internet, o capitalismo e o poder: todos ferramentas criadas pelo ser humano, que poderiam ser utilizadas a favor de uma maioria, mas que são manejadas de uma maneira ruim, que atingem à todos, porque, quando homens e mulheres não se encontram completos com excesso de bens materiais, acabam sendo engasgados pelo vazio da alma, e partem para violência. Mais um segundo passado, e o ciclo acaba de se repetir.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sei lá


  1. Topei sem querer hoje, com um vídeo de um dos meus programas preferidos de tv, lá nos meus 12 ou 13 anos, Quase Anjos. Passava na band, toda manhã, eu lembro que quando eu ia pro colégio pensava "Como eu queria ter aula de tarde, eu daria tudo pra acordar mais cedo só pra assistir quase anjos" algo assim. Amava quando tinha feriado e podia acordar  antes das 9 horas pra assistir em ponto quando começasse. Quando não assistia na tv, assistia  vídeos aleatórios no youtube mais tarde. Mas era a minha alegria, e era uma história tão simplesinha sabe? Cenas engraçadas em brigas que terminavam bem, casais formados e separados e depois reatavam, crianças de um orfanato que aprendiam a viver juntas... era uma novela mexicana. Hoje, as pessoas não fazem ideia do que é simplicidade, bem, muitas delas, existe a exceção, claro. O fato é que eu sempre ansiava pela cena do beijo entre Mar e Thiago, era meu ponto alto do dia, era minha felicidade de criança ver aqueles dois juntos. Hoje, as crianças ou os pré-adolescentes, até os adultos mesmo (por que não?) não querem saber de beijos (não necessariamente entre um casal, mas entre famílias, amigos...) clichês nas cenas não, e nem falo sobre o romance em si porque tem pessoas que não gostam, mas o símbolo do que um beijo significa, sobre prestigiar a existência do amor. Na verdade eles não veem a hora de cenas de sexo ou violência em um próximo episódio de algum programa que estejam assistindo. A cena em que fulano vai matar o doutor malígno, e a ideia de que o bem irá triunfar através da violência.  Meu ponto é, alguns valores foram mudados pros males. Um dia, conversando com uma prima, casada, que tem lá pros 30 e poucos anos disse "A geração de hoje em dia não sabe o que é o primeiro encontro, esperar a pessoa ir te buscar e o frio na barriga quando abre a porta". Eu escutei isso querendo opinar contra mas o romantismo morre ,aos poucos, cruelmente pela faca da ganância, do egoísmo, do preconceito. Com certeza ocorrem diversos romances verdadeiros escondidos por aí, tenho que acreditar, que são secretos e aparecem praqueles que reparam nas pequenas coisas. Não é privilégio não, é consequência de encontrar uma infinidade de minúcias em um minuto. É romance, é prazer, é plenitude, não é dinheiro, não é sexo, não é concreto. É abstrato. É amor, e ele vai sobreviver em meio a um mundo mundano, grotesco que muitos tem ajudado a emoldurar. Ele sobrevive, em meio a corpos mortos. Existe uma simetria entre as malícias e bondades que ocorrem no mundo, o amor praticado pelo ser humano é um lutador repetitivo, incessante, que age para quebrar esse espelho torto, pra tornar um determinado lado, maior, e cada vez mais soberbo, pra tornar o mundo mais sinônimo de planeta Terra, conhecido como o local onde vivem os seres vivos para viverem, de fato, mas que na verdade tentam sobrevivet, que não é uma palavra que tem mudado com a evolução. Desde quando os seres humanos viviam em cavernas e eram nômades, era de seu cotidiano a luta contra animais, contra fenômenos da natureza, em favor de sua sobrevivência. Com o passar do tempo ele foi criando ferramentas ao seu favor, que o ajudaram a sobreviver, enquanto os animais sempre tinham os mesmos hábitos e nunca "criaram" nada a seu favor, já que não possuem a capacidade de raciocinar, pelo menos é o que a ciência diz. O ser humano tem a capacidade de raciocinar e ainda assim massacra o próximo, mesmo com o avanço de toda a tecnologia. Numa aula de geografia, o professor disse que, com a tecnologia de hoje, não era pra existir fome no mundo. Mas existe, em contrapartida. Existe por conta da corrupção, do status, do capitalismo grotesco, que faz o trabalhador ou trabalhadora morrer de trabalhar por um dia de descanso, ou horas, e o gasto do salário mínimo pra 5 crianças de sua família. Tem gente que nem trabalho tem, nunca fui na África mas de acordo com os voluntários a trabalhos solidários, lá a situação é caos. Sem água, comida, dinheiro. Bilhões de crianças sedentas. Existe por conta de raízes históricas do ser humano, em ter se achado no direito de mandar no outro, de escravizar o outro, de se achar melhor que o outro. Existe. Se eu fosse pensar antes de dormir em cada situação em que um ser humano morre, no sentido literal e abstrato, a cada dia, por motivos banais, fúteis e mesquinhos (basta entrar em qualquer rede social que está lotada de pessoas, algumas com discursos de ódio, outras com discursos abertos realmente para um debate sobre temas, podemos dizer "modernos" mas que existem desde a origem de Adão e Eva), eu não conseguiria pensar em mais nada, a minha linha de pensamento ia quebrar. Acho que enlouqueceria, com os problemas do mundo, juntando com meus problemas, que não são nada. Às vezes eu até penso, antes de dormir... o travesseiro pesa muito. Não são problemas do mundo, a gente que vive nele, a nobreza pinta um quadro negro... são problemas passados que se repetem e se repetem, e viram um cálculo de erros que não acabam. Por que não prestigiar uma cena de amor, de gentileza, de simples coisinhas que valem a pena viver? Não pensar numa infinitude de problemas ajuda a sobreviver.

terça-feira, 11 de abril de 2017

23:43
O relógio que antes tocava pontualmente
pifou
Mas suas peças estavam intactas,
Pifou
É que a voz disse ontem mesmo
Que tudo ia ficar bem
Que era pra eu ficar bem
Que o relógio tocaria
Quando a hora chegasse
E suas palavras eram como chamas acalentando os dedos de um pequeno peregrino camuflado
numa tempestade de nevasca infinita
Dançavam com o frio
Remendavam os buracos daquele corpo esburacado
Daquela alma montanhosa com túneis horrendos pelos meios
Suas palavras eram travesseiro para meu esqueleto enferrujado
baldes d'água quando eu era semente enterrada
Eram fonte quando eu era náufraga
Eram régua para minha dor
E sabiam desarmá-la
Só elas sabiam como
Sabe lá céus como
Mas o relógio não tocou
E teu silêncio era mais cortante que uma palavra
mau
dita
23:43
Meus olhos aflitos
Fitam o que não vai acontecer
Criam sons da chegada esperada
Remoem, reviram, desabam
Levantam-se
E escutam
Uma fábula cabulosa
E o relógio não tocou
E ele não mais soou em desacordo com a minha sagaz arrogância
Minha estupidez humana
Ficou no meu olimpo secreto
Acabei dentro do espelho
da rainha da branca de neve
Engoli minha vaidade
Não enfrento minhas criaturas
Não encaixo nas molduras
Não sirvo nesse corpo quadrado
Meu sol nem forma tem
Sou cega a minha verdade
Subornei a minha liberdade
E agora pago pelo que nunca tive
Pago pelo que esperei
Pago em nome do meu Olimpo das Ilusões
Criei uma peça mau escrita
E em vez de andar por linhas tortas
De repente não mais tinham linhas
E eu desejei a tua face torta
Por segundos infinitos
Que face?
Teu recuo a me enxergar
Criam sombras duplas
escurecem tua boca
Tua voz desaparece
Tua seca me confunde
Teu silêncio cala meu socorro
Coroei a minha falsa liberdade
Que é amar o que foi perdido
Que é amar o que não foi dito