quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sei lá


  1. Topei sem querer hoje, com um vídeo de um dos meus programas preferidos de tv, lá nos meus 12 ou 13 anos, Quase Anjos. Passava na band, toda manhã, eu lembro que quando eu ia pro colégio pensava "Como eu queria ter aula de tarde, eu daria tudo pra acordar mais cedo só pra assistir quase anjos" algo assim. Amava quando tinha feriado e podia acordar  antes das 9 horas pra assistir em ponto quando começasse. Quando não assistia na tv, assistia  vídeos aleatórios no youtube mais tarde. Mas era a minha alegria, e era uma história tão simplesinha sabe? Cenas engraçadas em brigas que terminavam bem, casais formados e separados e depois reatavam, crianças de um orfanato que aprendiam a viver juntas... era uma novela mexicana. Hoje, as pessoas não fazem ideia do que é simplicidade, bem, muitas delas, existe a exceção, claro. O fato é que eu sempre ansiava pela cena do beijo entre Mar e Thiago, era meu ponto alto do dia, era minha felicidade de criança ver aqueles dois juntos. Hoje, as crianças ou os pré-adolescentes, até os adultos mesmo (por que não?) não querem saber de beijos (não necessariamente entre um casal, mas entre famílias, amigos...) clichês nas cenas não, e nem falo sobre o romance em si porque tem pessoas que não gostam, mas o símbolo do que um beijo significa, sobre prestigiar a existência do amor. Na verdade eles não veem a hora de cenas de sexo ou violência em um próximo episódio de algum programa que estejam assistindo. A cena em que fulano vai matar o doutor malígno, e a ideia de que o bem irá triunfar através da violência.  Meu ponto é, alguns valores foram mudados pros males. Um dia, conversando com uma prima, casada, que tem lá pros 30 e poucos anos disse "A geração de hoje em dia não sabe o que é o primeiro encontro, esperar a pessoa ir te buscar e o frio na barriga quando abre a porta". Eu escutei isso querendo opinar contra mas o romantismo morre ,aos poucos, cruelmente pela faca da ganância, do egoísmo, do preconceito. Com certeza ocorrem diversos romances verdadeiros escondidos por aí, tenho que acreditar, que são secretos e aparecem praqueles que reparam nas pequenas coisas. Não é privilégio não, é consequência de encontrar uma infinidade de minúcias em um minuto. É romance, é prazer, é plenitude, não é dinheiro, não é sexo, não é concreto. É abstrato. É amor, e ele vai sobreviver em meio a um mundo mundano, grotesco que muitos tem ajudado a emoldurar. Ele sobrevive, em meio a corpos mortos. Existe uma simetria entre as malícias e bondades que ocorrem no mundo, o amor praticado pelo ser humano é um lutador repetitivo, incessante, que age para quebrar esse espelho torto, pra tornar um determinado lado, maior, e cada vez mais soberbo, pra tornar o mundo mais sinônimo de planeta Terra, conhecido como o local onde vivem os seres vivos para viverem, de fato, mas que na verdade tentam sobrevivet, que não é uma palavra que tem mudado com a evolução. Desde quando os seres humanos viviam em cavernas e eram nômades, era de seu cotidiano a luta contra animais, contra fenômenos da natureza, em favor de sua sobrevivência. Com o passar do tempo ele foi criando ferramentas ao seu favor, que o ajudaram a sobreviver, enquanto os animais sempre tinham os mesmos hábitos e nunca "criaram" nada a seu favor, já que não possuem a capacidade de raciocinar, pelo menos é o que a ciência diz. O ser humano tem a capacidade de raciocinar e ainda assim massacra o próximo, mesmo com o avanço de toda a tecnologia. Numa aula de geografia, o professor disse que, com a tecnologia de hoje, não era pra existir fome no mundo. Mas existe, em contrapartida. Existe por conta da corrupção, do status, do capitalismo grotesco, que faz o trabalhador ou trabalhadora morrer de trabalhar por um dia de descanso, ou horas, e o gasto do salário mínimo pra 5 crianças de sua família. Tem gente que nem trabalho tem, nunca fui na África mas de acordo com os voluntários a trabalhos solidários, lá a situação é caos. Sem água, comida, dinheiro. Bilhões de crianças sedentas. Existe por conta de raízes históricas do ser humano, em ter se achado no direito de mandar no outro, de escravizar o outro, de se achar melhor que o outro. Existe. Se eu fosse pensar antes de dormir em cada situação em que um ser humano morre, no sentido literal e abstrato, a cada dia, por motivos banais, fúteis e mesquinhos (basta entrar em qualquer rede social que está lotada de pessoas, algumas com discursos de ódio, outras com discursos abertos realmente para um debate sobre temas, podemos dizer "modernos" mas que existem desde a origem de Adão e Eva), eu não conseguiria pensar em mais nada, a minha linha de pensamento ia quebrar. Acho que enlouqueceria, com os problemas do mundo, juntando com meus problemas, que não são nada. Às vezes eu até penso, antes de dormir... o travesseiro pesa muito. Não são problemas do mundo, a gente que vive nele, a nobreza pinta um quadro negro... são problemas passados que se repetem e se repetem, e viram um cálculo de erros que não acabam. Por que não prestigiar uma cena de amor, de gentileza, de simples coisinhas que valem a pena viver? Não pensar numa infinitude de problemas ajuda a sobreviver.

terça-feira, 11 de abril de 2017

23:43
O relógio que antes tocava pontualmente
pifou
Mas suas peças estavam intactas,
Pifou
É que a voz disse ontem mesmo
Que tudo ia ficar bem
Que era pra eu ficar bem
Que o relógio tocaria
Quando a hora chegasse
E suas palavras eram como chamas acalentando os dedos de um pequeno peregrino camuflado
numa tempestade de nevasca infinita
Dançavam com o frio
Remendavam os buracos daquele corpo esburacado
Daquela alma montanhosa com túneis horrendos pelos meios
Suas palavras eram travesseiro para meu esqueleto enferrujado
baldes d'água quando eu era semente enterrada
Eram fonte quando eu era náufraga
Eram régua para minha dor
E sabiam desarmá-la
Só elas sabiam como
Sabe lá céus como
Mas o relógio não tocou
E teu silêncio era mais cortante que uma palavra
mau
dita
23:43
Meus olhos aflitos
Fitam o que não vai acontecer
Criam sons da chegada esperada
Remoem, reviram, desabam
Levantam-se
E escutam
Uma fábula cabulosa
E o relógio não tocou
E ele não mais soou em desacordo com a minha sagaz arrogância
Minha estupidez humana
Ficou no meu olimpo secreto
Acabei dentro do espelho
da rainha da branca de neve
Engoli minha vaidade
Não enfrento minhas criaturas
Não encaixo nas molduras
Não sirvo nesse corpo quadrado
Meu sol nem forma tem
Sou cega a minha verdade
Subornei a minha liberdade
E agora pago pelo que nunca tive
Pago pelo que esperei
Pago em nome do meu Olimpo das Ilusões
Criei uma peça mau escrita
E em vez de andar por linhas tortas
De repente não mais tinham linhas
E eu desejei a tua face torta
Por segundos infinitos
Que face?
Teu recuo a me enxergar
Criam sombras duplas
escurecem tua boca
Tua voz desaparece
Tua seca me confunde
Teu silêncio cala meu socorro
Coroei a minha falsa liberdade
Que é amar o que foi perdido
Que é amar o que não foi dito

segunda-feira, 10 de abril de 2017

É uma dor sombria
chega de fininho nos becos sombrios da minha mente
chega fazendo bueiros
chega quebrando, um por um,
teclado por teclado
do meu piano
que fazia sons
inaudíveis a todos
mas eu os escutava
às vezes eram gritos
às vezes eram uma orquestra sinfônica
digna de um maestro astuto,
sabia bem os tons que desenhava no ar
com suas mãos de pincel
criava alfabetos como ninguém mais criava
pintava cores invisíveis falantes
era um espetáculo
com dias contados
Ah, mas lá fora era outra história
eram ecos tolos que ficavam de prontidão
o meu copo, que apresentava uma fina
finíssima rachadura
continha um oceano raso, calmo até
a dor chega, faz redemoinho com minhas águas
faz-me engolir sal
faz-me afogar em lágrimas
a dor não me deixou respirar
nem o último suspiro me deixou dar
se colocava a desdenhar
Até que um dia, na beirinha da mesa da escrivaninha
o copo é empurrado
meu corpo
é empurrado
Cai
Caí
a dor vai embora
os fragmentos cortam, sangram
mas a dor se foi
se foi
e com o tempo, eles se retomam
os fragmentos são juntados
com cola de sapato
sem jeito, assim como quem
bota café no fogo numa tarde
pra um desconvidado qualquer
sem jeito, o copo é refeito
sem jeito ele vira copo de novo
e o maestro já se prepara para os aplausos
de um novo espetáculo
onde o público se vestia de vermelho
se vestia de cortina
era um espetáculo