segunda-feira, 10 de abril de 2017

É uma dor sombria
chega de fininho nos becos sombrios da minha mente
chega fazendo bueiros
chega quebrando, um por um,
teclado por teclado
do meu piano
que fazia sons
inaudíveis a todos
mas eu os escutava
às vezes eram gritos
às vezes eram uma orquestra sinfônica
digna de um maestro astuto,
sabia bem os tons que desenhava no ar
com suas mãos de pincel
criava alfabetos como ninguém mais criava
pintava cores invisíveis falantes
era um espetáculo
com dias contados
Ah, mas lá fora era outra história
eram ecos tolos que ficavam de prontidão
o meu copo, que apresentava uma fina
finíssima rachadura
continha um oceano raso, calmo até
a dor chega, faz redemoinho com minhas águas
faz-me engolir sal
faz-me afogar em lágrimas
a dor não me deixou respirar
nem o último suspiro me deixou dar
se colocava a desdenhar
Até que um dia, na beirinha da mesa da escrivaninha
o copo é empurrado
meu corpo
é empurrado
Cai
Caí
a dor vai embora
os fragmentos cortam, sangram
mas a dor se foi
se foi
e com o tempo, eles se retomam
os fragmentos são juntados
com cola de sapato
sem jeito, assim como quem
bota café no fogo numa tarde
pra um desconvidado qualquer
sem jeito, o copo é refeito
sem jeito ele vira copo de novo
e o maestro já se prepara para os aplausos
de um novo espetáculo
onde o público se vestia de vermelho
se vestia de cortina
era um espetáculo

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